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À espera de revolucionários

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Dentre tantas atrações de Barcelona, o Museu Europeu de Arte Moderna (MEAM) é relativamente pouco conhecido. Numa viagem ao Velho Continente, para quem quer dar um tempo em meio a tantas igrejas e museus tradicionais, a visita vale a pena. O museu tem um propósito contundente e claro: está empenhado em buscar uma linguagem artística própria e genuína dos tempos atuais. Quer promover uma forma de arte – figurativa, diga-se de passagem – independente do que se fez até agora. Longe de negar o que já foi criado pela humanidade no campo das artes, e muito menos romper com essa história, o interesse, ao contrário, é o de encontrar uma expressão que possa bem representar uma evolução nas artes plásticas sob os pontos de vista estético e de comunicação. E de que essa expressão seja reconhecida, numa perspectiva histórica, como uma contribuição das gerações atuais ao mundo das artes.

Como se fosse uma provocação aos artistas que nele expõem, ou que almejam expor, o MEAM fica a poucos metros do Museu Picasso, dedicado ao mestre considerado um dos artistas mais revolucionários nas artes plásticas de todos os tempos, e responsável por inegáveis avanços na pintura, gravura, escultura e nas cerâmicas. As contribuições desse único artista para a história da arte, e, claro, seu apelo popular, fazem com que existam no mundo quase uma dezena de museus dedicados exclusivamente às suas obras.

Voltando ao MEAM, seu belo acervo inclui pinturas hiper realistas, daquelas que a gente jura estar vendo uma foto, arte digital e obras interativas. Esses trabalhos inovadores, entretanto, são relativamente poucos se comparados a tantas outras obras expostas que, ainda que interessantes, replicam, numa temática atual, técnicas e estilos há muitos séculos utilizados.

Ao visitar o museu, estimulado por sua provocativa e ambiciosa proposta, peguei-me tentando imaginar o futuro distante. O que estará exposto, daqui a cem ou duzentos anos, em museus que queiram retratar a arte característica dos dias de hoje? Se deixarmos de lado aquelas instalações artísticas difíceis, se não impossíveis, de se entender, qual o legado das gerações atuais que poderá ser considerado uma evolução na história das artes plásticas?

Recolho-me à minha ignorância no tema e deixo para os entendidos. Mas o próprio MEAM parece não ter essas respostas. O museu reconhece que, apesar de acreditar em sua missão, ainda não conseguiu resultados satisfatórios na empreitada. Considera que, no campo das artes, vivemos às custas do passado, e que o homem da atualidade, por somente preocupar-se com o momento em que vive, o sucesso imediato e a “pequena e limitada visão do instante”, perdeu o senso da eternidade.

Vivemos tempos acelerados e de grandes e notórios avanços tecnológicos, resultado de criatividade e de maciços investimentos em inovação. A um leigo admirador de arte, numa avaliação um tanto exagerada para efeitos de argumento, a impressão é de que, no futuro, as obras características de nossa era poderão estar restritas a museus de ciências e de tecnologia.


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