Pois quando eu já menos esperava, você me apareceu de novo. Não bastasse não ter sido convidada – nunca foi –, você agora chega de golpe, arrombando a porta. Não tem mandado os avisos de costume; não dá chance de defesa. Eu bem poderia sair para pedalar, aumentar o volume da música. Beber com os amigos. Essas coisas funcionam, acho que você já percebeu. Ajudam-me a cavar trincheiras; a levantar muros sobre os quais você, por mais que tente, não consegue pular.
Até conhecer seu lado mais amargo, quando me limitava à preocupação simples de encontrar meu lugar no mundo, quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. O dilema virou história, e eu passei a fugir de você. E dessa sua capacidade de banalizar todas as demais aflições humanas.
Ultimamente, no entanto, você tem se armado melhor e apostado na surpresa. Tem feito uso da artimanha do sonho, eis que sobre ele homem nenhum tem controle. O mesmo sonho capaz de trazer à tona os prazeres das memórias mais doces passou a ser, por seu intermédio, minha porta de maior vulnerabilidade. Na paz aparente da minha noite, você tem me atacado e desvelado com crueldade o que com tanto custo tento esquecer. Tornaram-se, esses sonhos, a maior evidência do quão curta é a distância entre as alegrias das boas recordações e a melancolia (e o tanto de traiçoeiro que pode haver nessas alegrias).
Ainda me pego a pensar no dia em que vamos ter esquecido um do outro. Você passará a ser nada além da marca apagada de um tempo de muita dor; não me procurará mais, eu não pensarei em você. Mas essa minha ingenuidade teimosa acaba batendo de frente com a verdade. Nem todas as feridas, afinal, podem ser curadas pelo tempo – isso você gosta de deixar bem claro; há as que não cicatrizam nunca.
Eis, portanto, que me rendo agora à sua força, à sua persistência.
Façamos nós dois, então, por minha súplica, um pacto: eu deixo a porta da frente encostada, e você bate antes de entrar; você deixa de atormentar minhas noites, e eu desisto de te dar adeus.
Se você concordar, minha insuportável tristeza, fique muito à vontade para partir novamente.

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Comentários para: Noites inquietas
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    19/12/2020

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