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O verão de 79

50

O ócio é a oficina do diabo. Bobagem. Grandes feitos também podem nascer de momentos aparentemente áridos de vagabundagem. A tese passou pela minha cabeça enquanto tentava lidar com a ansiedade e o tesão diante das curvas daquela mulher que para mim havia se despido. Poucas, pouquíssimas horas antes, eu tentava distrair o tédio numa das tardes mormacentas de janeiro em Porto Alegre. Sozinho em casa, amigos na praia, a cara na frente do ventilador testando o vibrato que o vento produzia na minha voz desafinada. O sopro resfriava meu rosto, e o meu corpo se arrepiava em sincronia, numa prazerosa, ainda que pouco explorada, agitação adolescente. A natureza vinha se manifestando naqueles dias, e os sentidos reclamavam por atitudes. Diriam os verdadeiros pecadores que foi o diabo à espreita que me alcançou o jornal do dia e seu caderno de cultura.

No ônibus rumo ao Bom Fim, nasceu a estratégia de uma entrada dissimulada no Baltimore. A excitação tirou de foco as menininhas comportadas que se aglomeravam na entrada do cinema vestidas de Sandy, a espera da próxima sessão de Grease. O objetivo era a porta interna que dava acesso ao vizinho Bristol. Dinheiro contado, que é pra não ter que esperar o troco, toma coragem, finge que tem dezoito anos, segura a respiração e não encara a velha da bilheteria. O sucesso do plano me levou pelas escadas até a pequena sala inclinada e com cheiro de umidade, onde outros solitários provavelmente compartilhavam a mesma emoção diante do iminente prazer proibido. No filme, as pernas começaram a tremer, o coração a martelar na garganta e a calça a encolher a cada vez que Emmanuelle tirava a roupa. O corpo e a sedução da deusa preencheram a tela, ultrapassaram seus limites e vieram sentar-se na poltrona ao meu lado. Nossos braços se tocaram, depois os ombros; suas arfadas, próximas do meu ouvido, concorriam com seus gemidos na tela. Nossos joelhos se encontraram, e suavemente testamos a terceira lei de Newton em sinal de sintonia.

Ao final do filme, as luzes me levaram Emmanuelle. Saímos juntos, eu e a mulher de carne e osso, a caminhar pela Redenção. Já saiu com guria mais velha? Já, menti. Tu bebe? Bebo, menti outra vez. Fuma? Eu sei tragar, falei. Somente mais tarde ela descobriu o que eu de fato sabia, e, principalmente, o que eu não sabia fazer direito. Diante daquela mulher nua, a quem nunca mais vi, fiquei imaginando seu nome. Emmanuelle. Passou a ser. Minha Emmanuelle me acompanhou pelo resto daquele verão e muito mais. Na piscina, quando trazia as amigas; em banhos de cachoeira; em sessões de massagem e em diversos voos noturnos.


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