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Ponha a culpa em Gilda

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Difícil lidar com esse troço, sempre foi. Eu, com quase trinta anos, pensando em homens e mulheres, e sem saber se os outros eram como eu. Ninguém nunca me contou nada parecido. Quando criança, eu geralmente me enxergava como menino e fazia coisas de menino: jogava bola com a turma da rua, saía pra andar de skate e, mesmo franzino, como até hoje eu sou, brincava de luta. Tomava pau sempre. Mas às vezes eu também queria ser menina. Queria cantar como menina, dançar como menina, desfilar como as minhas amigas desfilavam nas festinhas. Eu me trancava no banheiro lá de casa, usava a maquiagem da minha mãe e ficava parecendo uma menina bem bonita até. Aí eu ouvia minha mãe chegando e tinha que limpar bem todo o meu rosto, não podia deixar vestígio. Esfregava bem a boca, as bochechas e os olhos, entrava no banho e só saía do banheiro depois de me olhar muito no espelho. Sempre adorei um espelho.

Um dia, eu comecei a pensar se o que eu precisava não era ter uma chance de viver um pouco essa fantasia de ser mulher. Até tentei pesquisar pra ver se isso fazia sentido, mas não soube quais palavras colocar no Google. Então, lendo uma noticia no jornal, veio a ideia de participar de um concurso de homens que se vestem de mulher. Idéia bizarra, eu sei, mas talvez nem tão bizarra pra quem tinha que enfrentar esses delírios que me consumiam já há tanto tempo. Na doideira, resolvi pensar no assunto. Se não resolvesse meu problema, pensei que eu pelo menos poderia gostar da experiência.

Bolei um plano, e acho que ficou ótimo; resolvi estabelecer umas condições para seguir com essa ideia. A primeira coisa que eu precisava era escolher um concurso em outra cidade. Pra não ser reconhecido, claro. O jornal dizia que a Virada Cultural do Rio estava programada para uma sexta-feira, no fim de maio. Faltavam duas semanas e as inscrições estavam abertas. Conheço um pouco a cidade, já fui algumas vezes a trabalho. Não tenho parentes nem amigos lá. O Rio serviria: concurso grande, na praia, muita gente circulando, eu me misturando na multidão. Impossível alguém me reconhecer. A programação parecia bárbara e quem vencesse receberia a coroa da Rainha da Virada, entregue pela Fátima Fastfood. Eu nunca tinha ouvido falar de alguém com um nome como esse, nem entendia nada desse ambiente. Eu só queria me vestir de mulher, desfilar, dançar e ser aplaudido. Ganhar o título, eu não queria, Deus me livre. Minha foto apareceria na internet, super publicidade, alto risco.

Outra condição foi que eu tivesse tempo suficiente para criar uma personagem aceitável. Pensei em Gilda. Meio óbvio que no meu subconsciente eu já sonhava em ser Gilda, porque foi tão fácil lembrar dela. Bem verdade que eu tenho uma cópia do filme no meu iPad e assisto toda a noite em que bate a insônia. There never was a woman like Gilda! é a tagline no cartaz do filme. Foi moleza aprender a dançar Put the Blame on Mame como ela. Aquela cena é o próprio filme: Gilda num cassino em Buenos Aires, dançando e desenrolando aos pouquinhos as luvas pretas compridas que iam até a metade dos braços. Era melhor que strip tease. Eu peguei um vestido preto decotado do tempo em que a minha mãe era magra. Sempre tão elegante a minha mãe; nunca teve uma mulher como ela. Numa loja de fantasias, comprei uma peruca vermelha, bem vermelha, com um penteado que caía na altura dos meus ombros, até parecido com o da Gilda. O filme é preto e branco, mas todo mundo sabe que a Rita Hayworth era ruiva. Não tão vermelha como a peruca, claro; ela não era uma drag queen, era uma diva. Achei as luvas pretas numa fantasia de Mortícia, a meia calça eu comprei no mesmo lugar onde eu compro cuecas, e a sandália numa lojinha no centro. Achei uma 41, de salto bem alto, cheia de pedras pretas, lindíssima. Tive que improvisar uma segunda pele pra vestir por baixo do vestido, porque a Gilda dançava sempre com os braços levantados, e eu obviamente não queria me depilar.

Um dia em que minha mãe não estava em casa, me tranquei no banheiro e me transformei em Gilda. Para seguir adiante com o plano, eu teria que me achar bem. Ficou divino, e seria impossível alguém me identificar com tanta maquiagem. Ali eu tive a certeza de que precisava mesmo viver um momento de glória, e que aquilo seria grande e fabuloso o suficiente para eu me satisfazer. E a partir dali, quem sabe, eu deixaria de lado esse negócio de querer ser mulher de vez em quando. Me despi de Gilda, esfreguei bem o rosto como eu fazia quando era criança e tomei um banho.

Eu precisava também achar um lugar onde guardar todo o traje sem a menor hipótese de que fosse encontrado pela minha mãe. Aluguei um armário na rodoviária e deixei tudo lá numa mochila à minha espera.

Fui pro Rio, inventei uma história de trabalho. Saí na sexta pra voltar no sábado de manhã, cinco horas de ônibus. Foi tudo maravilhoso, um sonho. Conheci muita gente bacana e nunca precisei dar meu nome verdadeiro. Gilda foi um arraso na passarela, e cheguei a levar medo de tanto aplauso e elogio, mas graças a Deus não ganhei, nem mesmo fiquei entre os finalistas. Teve festa num bar da Farme depois – o máximo aquela rua, e Gilda se esbaldou na bebida antes de pegar um táxi e ir pro hotel, no centro. O taxista, um sujeito mais velho, de bigodão e cabelos crespos, olhava pra mim pelo retrovisor de um jeito esquisito, mas, puxa, o que poderia ser mais esquisito do que ter Gilda bêbada no carro?

No sábado, não ouvi o despertador do celular. Fui acordado pelo calor do quarto – o sol batia em cheio na cortina de plástico. Quando vi que faltava uma hora para meu ônibus sair, dei um salto da cama. Vesti as calças, a camiseta e enfiei os tênis, tentando não pensar na dor de cabeça que sentia. Joguei tudo na mochila, desci correndo as escadas e, quando cheguei no térreo, me olhei num espelho e vi que estava todo borrado de maquiagem. Lambi a ponta dos dedos e esfreguei o rosto com força; lambi mais uma vez e tentei tirar o risco de rímel do canto dos olhos. Sabia que não iria sair. Enquanto tentava me limpar, vi pelo reflexo do espelho um homem sentado no sofá da recepção, me encarando. Estava bem diferente sem o bigode, mas consegui reconhecer o taxista. Ele se levantou e veio caminhando na minha direção, fazendo uma figura que parecia deslocada daquele cenário informal do centro do Rio de Janeiro, calorão, num sábado de manhã. Todo alinhado, vestia um terno escuro, abotoado, com uma gravata azul. O cabelo lambido, penteado pra trás, fazia ele parecer um cantor de tango ou coisa parecida. Ficamos nos olhando pelo reflexo do espelho, ele com uma cara de curioso, querendo esboçar um sorriso, e eu de cara borrada, meio assustado, meio intrigado. Foi quando ele me disse baixinho que era apaixonado por Gilda que me dei conta: ele era o próprio Glenn Ford, o melhor par de Gilda.


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