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A sunga bege

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Aquela maldita sunga bege! Naquele verão ele olhava para o seu pai à beira-mar com aquele detestável calção de banho de proporções minúsculas cor de pele. Já havia se tornado a rotina. Sua figura paterna chegava na praia, de chapéu, óculos arcaicos e barriga de proporções titânicas. Sem contar os aparatos! Guarda-sol, cadeira e o traquejado isopor. Todos os finais de semana era a mesma coisa.

Se fosse só a agressão visual que ele lhe causava, tudo bem! Mas tinha mais. O pai ainda fazia brincadeiras sem graça. O tratava como criança. Que absurdo! Afinal das contas, ele já estava prestes a entrar na faculdade no próximo ano.

Ele olhava para aquela figura se perguntava se ele não tinha vergonha daquilo tudo. Como era possível?

Todas as suas férias escolares foram assim. Quando o pai chegava na praia ele já se preparava pra passar constrangimento. Os ritos da semana, estes sim eram prazerosos. Curtir os amigos, os amores de verão. Mas quando chegava a sexta-feira, ele sabia que seu pesadelo estava prestes a começar. E só acabaria no domingo, quando seu velho partia de volta pelos caminhos da Freeway rumo à capital.

Ele simplesmente não conseguia entender como o pai fazia sempre as mesmas coisas no verão. Chegava sexta à noite e já abria a sua cerveja e carteado com a mãe. No sábado, a terrível sunga via a luz do dia. Ele até tentava não ir junto para a beira da praia. Mas a mãe o obrigava. Afinal, o pai passou toda a semana sem vê-lo. E no domingo era tudo igualzinho. Praia pela manhã, churrasco à tarde, descanso na rede e estrada ao anoitecer. Sempre igual. Como era possível? — ele se perguntava enquanto via o pai partir no dia santo, após um forçado abraço.

Mas assim como chegam, os verões passam. Os amores juvenis foram ficando para trás. Os anos de faculdade transcorreram voando. A vida profissional também veio, assim como o casamento e os próprios rebentos. Um menino e uma menina. Também percebeu que o tempo foi um santo remédio para mudar o que sentia pelo seu pai. Finalmente entendeu por que o patriarca seguia aqueles ritos na estação do sol.

Agora era a sua vez de fazer a mesma coisa. Chegava no litoral na sexta ou vezes sábado pela manhã. Ia para praia como podia, sem se preocupar com a forma física ou com o que usava. Só queria relaxar e curtir a família. Porém, num sábado qualquer percebeu seu filho, agora adolescente, o fitando com olhar de desapreço. E constatou, rapidamente, que aquele poeta latino-americano de volumoso bigode estava certo todo este tempo: somos como os nossos pais.


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