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Saindo à francesa

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Lucas e Solange estavam casados há 15 anos. E desde que se conheceram não se desgrudaram mais. Era um daqueles casais que ninguém mais conseguia imaginar um longe do outro. Além do amor explícito, havia neles uma outra característica marcante, eram verdadeiros mestres em sair à francesa.

Para quem ainda não é familiarizado com o termo, se refere ao ato de retirar-se de um evento social sem ser percebido. Ela teria nascido da reação dos franceses ao observarem a praticidade dos ingleses nas celebrações. Eles levantavam e iam embora, sem cerimônias. Assim, adotaram o termo iler à l’anglaise, isto é, “sair à inglesa”, para o estranho comportamento.

Com o tempo, a conduta antes vulgar, acabou sendo adotada pelos parisienses. Que a rebatizaram de “sair à francesa”.

Já no Brasil, o ato de partir sem cortejar ainda é visto com certa desconfiança. Por isso, sair discretamente requer muita habilidade para escapar de olhares julgadores.

E nisso Lucas e Solange eram verdadeiros craques. Quando os amigos percebiam, eles já tinham ido. Algumas vezes usavam táticas diferenciadas, como sair aos poucos. Um de cada vez. Os chegados até tentaram pegar o engenhoso casal no ato em algumas oportunidades. Mas nada feito. Eles sempre davam um jeito de sumir com assombroso talento.

O inventivo casal ficou tão bom em sua arte que a diversão era participar de eventos só pra ir embora. Se vangloriavam que não havia situação que não pudessem partir sem deixar rastros.

Até a chegada do Whatsapp.

O imperativo aplicativo de troca de mensagens permite que qualquer um seja incluído num grupo contra sua vontade. E se quiser sair, uma mensagem na tela entrega a partida para todos os membros. Os nossos protagonistas entraram em desespero ao serem incluídos em vários agrupamentos, onde não havia maneira alguma de partirem à francesa. Era um pesadelo sem fim. Uma eterna festividade sem planos de evacuação.

Pode parecer loucura, mas a situação mudou tudo para eles. Os infindáveis apaixonados se tornaram distantes. Primeiros dos amigos e depois de si mesmos. O sólido casamento acabou em pouco tempo e ambos entraram numa profunda depressão. Tudo por causa do autoritário aplicativo de mensagens.

Agora pense bem, se nem eles conseguiram fugir do grupo da família, imagine nós, pobres mortais.


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