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O Senhor Ninguém

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O SENHOR NINGUÉM
– Eraldo Gallindo –

Mal despontava a manhã, lá ia o homem cumprir religiosamente sua tarefa de todos os dias: recolher o lixo das ruas.
Carregava às costas um saco de estopa largo e resistente. Nada escapava ao seu olhar cirúrgico: pedaços de plástico, papelões, garrafas, sacolas, vidros. Os restos esquecidos no chão o perturbavam, como se a sujeira das sarjetas infectasse o ar da cidade, manchando a paisagem. Envergando indefectível calça cáqui, camisa de mangas compridas, sandálias de couro cru e chapéu de feltro, andava a passos largos, com a urgência dos obsessivos. Não conhecia sossego até recolher os dejetos que suas mãos alcançassem e o corpo esquálido pudesse suportar.
“Corram, se escondam, lá vem o velho do saco”, gritavam os moleques da rua, e saíam em atropelo, às risadas. O homem não os ouvia, absorto em seu mundo. Não havia medo na garotada, apenas estrepitosa zombaria.
“Esse pobre diabo não tem família que dele cuide, coitado, para cima e para baixo, todo dia, que sina!”, exclamavam curiosos, em comentários prosaicos, sem maior comiseração.
Atravessava a cidade de ponta a ponta, lutando estoicamente contra os maus hábitos dos que emporcalham o passeio público. Luta inglória, por certo, mas o pobre homem não encontrava outra razão na vida. Absorto, mirando com olhos vítreos o chão à procura de resíduos, não encarava as pessoas, os bichos ou qualquer coisa viva. Talvez jamais tivesse prestado atenção às estrelas; todas reluziam dentro dele, pois não há máculas nos loucos, como se sabe. Dentro dele cabia o mundo.
Havia um tom marcial na figura taciturna ― um soldado pronto para batalha. Disciplinado, apressado, implacável, um Quixote às avessas, sem glórias militares ou o amor de uma donzela. Sol e chuva não impediam sua sagrada missão: remover do mundo as impurezas.
“Flores não brotam no lixo”, diria, se juízo tivesse. Como não tinha, permanecia mudo. Negava a todos os pensamentos da sua mente alucinada. Seus olhos, sim, falavam, cheios de docilidade e melancolia.
Nascido em família de boa renda e nome social, desde cedo se viu escanteado. A loucura não senta à mesa nem se exibe nos salões de festa ou nas cerimônias públicas. Pelo contrário, causa embaraços. O “ponto fora da curva” é tido por nódoa na árvore genealógica. Que clamores trazia no peito, por quais réguas media pensamentos e emoções, não se sabia. De certa forma, era também dejeto. Sem qualquer protesto ou lamento, conformou-se ao próprio casulo. Quedou-se, envolto pela intransponível mudez dos indiferentes.
De migalhas sobrevivia: restos de comida, roupas puídas, uma manta para o frio das noites, um par de sandálias velhas, um cinturão gasto. Tinha bem pouco quem era pouco na vida.
“Teria remédio alguém tão desconectado da realidade, movido por delírios?” ― familiares se perguntavam, talvez para atenuar possíveis sensações de culpa. A má sorte engendrara insanidade naquela criatura, lamentavam. A lógica de tais raciocínios se perdia nas divagações estéreis, nada mudava.
Como de hábito, o nome de batismo dos lunáticos desaparecia logo depois da cerimônia religiosa. Os apelidos retornavam, colados que estavam à pele dos seus donos. Perdem a identidade substantiva, para virarem adjetivos. Recaía sobre o hermético homem o peso dos epítetos: “Velho do Saco”, “Doido do Lixo”, “Alma Penada”, “Malassombro”, “Papa-Figo”. Apenas um traço pitoresco na paisagem humana da cidade.
Fartos eram seus monólogos. A voz nasalada impedia a compreensão das palavras, um amontoado de sons sem nexo. Que vozes sacudiam sua alma? A quem dirigia seus sussurros? Se um anjo aparecesse em seu socorro e desse clareza à sua fala, por certo se destacariam frases assim:
“Vejo o lixo do mundo, as torpezas dos homens, mas acredito na beleza que repousa no fundo das coisas.”
“Quem cuida da limpeza das ruas e dos jardins, cuida também dos tesouros da alma.”
“A sujeira é a escuridão do espírito, contraria sua vocação natural à luz.”
Mas não havia anjo nem sentenças filosóficas a desvendar, apenas um homem perdido nas engrenagens da existência. Um homem de sussurros, sem interlocutores. Sua voz constituía sua instância de humanidade. Quem há de negar, quem há de saber?
Mirava o chão, as serras, o horizonte, o nada. Os paralelepípedos das ruas conheciam seus passos, sua pressa a vencer distâncias. Suas mãos de catador se demoravam no exame dos objetos largados à toa. Separava o mole e o duro, o viscoso e o seco, o brilhante e o opaco, o grande e o pequeno, o quebrado e o inteiro, o feio e o bonito. Meticuloso e seletivo.
A inteligência grega encontrou na ideia do cosmos uma maneira eficaz de ordenar o caos. Teria aquele homem suspeitado de tal solução? Limpar as ruas seria uma forma de restaurar ― mesmo que microscopicamente ― a ordem das coisas? Seu mundo, seu reino!
Por anos a fio percorreu desabaladamente ruas, becos, ladeiras, declives, caminhos de cimento e de terra, de lama e de poeira. Ressecou a planta dos pés, calejou as mãos, adoeceu, envelheceu. Sua pressa, entretanto, não disfarçava tristezas. Nunca um sorriso nos lábios, uma efusão de alegria. Um homem de triste figura a ziguezaguear pela cidade hostil. Sozinho, sem juízo, sem amigos, perdido no mundo, perdido de si.
Um dia, vencido pelas infindáveis pilhas de lixo que se multiplicavam, desistiu. A cidade havia crescido, novas edificações se espalhavam feito ervas daninhas. O mundo se transfigurava velozmente. Num lampejo de consciência, tomou noção da inglória batalha contra o lixo e os homens. Alquebrado no corpo, vazio na alma, recolheu as armas, reconheceu a derrota.
*
Recolhido a um abrigo de anciãos, podia ser visto à sombra de uma mangueira secular a murmurar as velhas e indecifráveis palavras, como se entoasse lamentos dirigidos ao nada.
Numa madrugada de outono, morreu.
Nadificou-se o Senhor Ninguém.

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Eraldo Galindo. Arcoverde/PE.


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  • Versa sobre um doido da cidade de Arcoverde, em Pernambuco
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