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Discurso à beira do caos

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Por favor, não me peçam mais poemas ou crônicas. Não me peçam mais análises, opiniões, prognósticos. Não tecerei ensaios, artigos ou teses. Tampouco estou disposto a ler originais. Não, pelo amor de Deus, não! Não me mandem originais. Mas, acima de tudo, não me peçam discursos. Não me peçam para ouvi-los e, em hipótese alguma, me peçam para escrevê-los. Não escreverei mais discursos. Estou farto! Farto!

Discursos estão fora de moda. Discursos não possuem mais serventia. Discursar porquê? Para quê? Por quem? Pelos jovens assassinados em Santa Maria? Pelos cartunistas franceses? Pelos turistas olímpicos assaltados em Copacabana? Não, me deixem de fora.

Não há mais Luther Kings, Lennons ou Gandhis. Estão todos mortos! Seus sonhos? Mortos! Suas ideologias? Mortas! E não se engane: nenhum deles foi assassinado por armas de fogo. Foram os discursos! Foi a nossa inescrupulosa necessidade de citá-los e recitá-los à exaustão em discursos vazios, hipócritas e demagogos.

Não perceberam? Ninguém está mais prestando atenção. Ninguém mais está ouvindo coisa alguma. Já não falamos coisa com coisa. Então, para quê tanto alarido?

Dia após dia, estamos falando mais e mais alto, berrando um por cima do outro, para que não precisemos ouvir os últimos estertores de nossa humanidade. Para que possamos tentar escapar da culpa, da vergonha, da humilhação.

Estamos acabados, mas a gritaria desesperada dessa geração mascara a face cadavérica da nossa sociedade, já em acelerado estado de putrefação.

As palavras não valem mais. Tudo que tenha sido dito, escrito, arquivado, carimbado, rotulado, selado, assinado e registrado em três vias no cartório perdeu sua validade.

O poeta já havia cantado, há muito tempo, que alguma coisa estava fora da ordem, mas não são frases desconexas pichadas em prédios abandonados ou ingênuos cartazes em muros e tapumes que irão nos salvar e recuperar as ilusões perdidas. É desnecessário agora separar o lixo e economizar água. Andar de bicicleta para desafogar o trânsito. Carregar ecobags para poupar sacolas plásticas. O tempo de plantar foi perdido e agora não há o que colher.

Esqueçam os presidentes e seus discursos. Esqueçam o Papa e suas homilias. Esqueçam os profetas e suas previsões furadas.

Discursos não constroem; sejam à direita ou à esquerda. Aliás, esqueçamos direita e esquerda. Políticas são pequenas, frente à natureza, eternamente soberana. E quando os recursos naturais escasseiam, fronteiras são erguidas. Quem tem, explorará quem não tem. Quem não tem, tentará roubar de quem tem. O sonho de um mundo livre foi aniquilado na prisão de nossas mentes.

O mundo não está perdido. Nós estamos.


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