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Lua-de-Mel

54

Um século os separava. Cinquenta provocados por ela. Cinquenta provocados por ele.

Ele justificava sua metade, dizendo que a necessidade de prover o sustento da família o afastara da convivência domiciliar. Era preciso criar os filhos; porém, os filhos cresceram, e ele continuou distante, alcançando lonjuras cada vez maiores. Sua desculpa, agora, era velhice, pois precisava continuar trabalhando para para sustentá-los, pois em sua crença os filhos sempre acabam abandonando os pais.

E continuava. “Velhice custa caro”. Dias atrás, inclusive, entrou em casa, comentando que gastara mais de R$ 400 em um único remédio. “Como pode?’ falava sozinho, andando pelos corredores do apartamento deserto.

Coincidentemente, a justificativa dela era a mesma: os filhos. Era preciso cuidá-los, dar-lhes a atenção que o pai não pôde, escutar seus desabafos, seus problemas amorosos. E daí que fora obrigada a interromper seus sonhos, a desistir de seu desejo de ser enfermeira. Que nada. Se ser mãe era padecer no paraíso, ninguém jamais padeceria como ela. E quando sua filha crescesse ela cuidaria dos netos, como se suas crias fossem.

Mas ela também não alcançou sucesso. Contra sua vontade, os filhos cresceram. Os homens seguiram o destino do pai, perdendo-se na vida à custa de aventura. Um virou advogado, pai de três filhos, e o outro, publicitário, abriu um bistrô.  A filha, a mais velha, formada em administração e trabalhando em uma multinacional, casou-se e foi morar mais de dois mil quilômetros distante do jugo materno, em uma tentativa desesperada de impedir que a avó repetisse com os netos o que ela tentava a todo custo esquecer.

Eles ainda buscavam o amor filial, através de chantagens emocionais. Um que outro, eventualmente, aparecia em um feriado, ficava dois, três dias no máximo e novamente ia embora

O apartamento ficou grande demais. Ele inventou uma briga com a mulher e começou a usar o outro banheiro. Ela comprou uma nova geladeira, explicando que se fazia necessária, caso algum dia ocorresse de todos aparecerem para o ano-novo.

Mas veio o fim do ano e ninguém veio.

Na grande sala, o velho assistia ao noticiário político, enquanto ela lia os jornais do dia anterior.

– Vou deitar. Tu vem?

– Em seguida.

– Tu fecha a porta?.


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