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Um cético incorrigível

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Eu não acredito em horóscopo, mas meu cachorro, sim. Então, toda manhã, incluindo domingos e feriados, o Alan traz o o jornal na cama e eu não posso sair dali até ler o que nos reservam os astros.

Nos reservam? Mas o cronista acabou de dizer que não acredita em astrologia. Sim, eu disse isso. Mas é que o Alan insiste em que eu leia o dele e o meu.

Eu acreditava que trazer jornal na cama era um tipo de funcionalidade que vinha junto com o cachorro. Tipo, serviço agregado, entende? Mas não, nem todos fazem. O Alan faz, mas só por interesse.

Tão logo ele solta o jornal na cama, começa a latir sem parar. Leio esportes. Latidos. Segundo caderno. Mais latidos. Política. Abre parênteses. Estou pulando poítica nas últimas semanas, porque além dos latidos, ele começou também a rosnar e mostrar os dentes. Fecha parênteses.

Voltando aos latidos. Percebi que ele só parava quando eu lia o horóscopo. Áries, para ele. Aquário, para mim.

Como disse, não acredito. Acho pura tolice. Leio para tranquilizar o Alan e porque isso o deixa feliz. Por favor, não estou desmerecendo quem escreve e quem acredite; o problema é comigo. Dizem que minha descrença é birra, só “pra ser do contra”. Mania de jornalista que acredita precisar ser cético para parecer inteligente. Nada a ver. Nada a ver.

Porém, desde a chegada do Alan aqui em casa e, consequentemente, desde que iniciei a leitura do horóscopo, tenho percebido algumas casualidades, vez por outra, a coisa bate com a minha vida. Em certo ponto, não posso negar que até ajuda e me deixa mais entusiasmado para enfrentar o dia.

Ainda não acredito, que fique bem claro. Pode ser tudo uma tremenda coincidência. Novo parênteses. Alguns amigos fanfarrões, depois que lhes contei a história, me disseram: “Tu não acredita em horóscopo, mas acredita que o cachorro entende o que tu fala? Sério, tu precisa voltar a consultar teu analista”. Fecha parênteses.

No fim, quem se diverte mesmo com essa história toda é o Fred, meu gato. Quando começo a ler o horóscopo para o Alan, ele vira a cabeça e sai do quarto. Mas esse, desde que eu li Nietzsche para ele, se tornou um cético incorrigível.


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