Eu vim a descobrir o que é o amor quando eu estava quase próximo aos 40. Por isso, demorei tanto tempo para arruinar minha vida. Sim, porque é isso que o amor faz conosco: eles nos leva à ruína.

Não, claro que não faço referência ao amor-hora-expediente-certidão-em-cartório-dois-filhos-e-um-cachorro, que há quase um século, a publicidade e a indústria cinematográfica americana nos vende. Àquilo, não se pode chamar amor.

Por favor, entenda que não há julgamentos aqui. Eu, inclusive, já fui partidário do modelo que acima descrevo; e acho um caminho justo e necessário para aquele que não está pronto à entrega total.

O amor, como eu vivi, é feito um câncer, um vício, que silenciosamente destrói o corpo que lhe serve de abrigo, perpassando cabeça, músculos e veias, com pensamentos depressivos, ansiedade e, em casos extremos (mas não tão raros), levando à morte.

Comigo, não foi diferente. Embora não tenha sido fatal, depois de sua partida, o amor não deixou mais do que escombros e destroços. Eu era tal qual um país invadido, que não se recupera.
Durante muitos dias, fiquei até mesmo com vergonha de me olhar no espelho, tal era a enfermidade em que me encontrava.

Calma, calma. Esta visão cruel e destrutiva que agora apresento não se mostra de imediato. Em seu início, o amor nos deixa em estado de graça, como um fiel devoto ante a visão (ilusória) de seu Cristo. Em seu início, o amor nos assusta e, ao mesmo tempo, nos encanta, tal qual a um menino que, pela primeira vez, contempla o infinito do oceano ou um jovem que adormece, abraçado em sua amada, depois de penetrar-lhe o sexo.

E, ao contrário do que perpetua a crença, o amor é incapaz de durar para sempre. O amor é breve (e precisa sê-lo) porque é belo, e uma beleza ferida não sobrevive ao tempo; ela se despedaça, se quebra e nos corta, tal qual os restos do cristal após violentamente ter sido jogado contra a parede.

Ó, filhos meus, amigos e irmãos, como o profeta, em verdade, em verdade, vos digo: não enfrenteis a fúria do amor, se não estejais dispostos à entregar-lhe tudo.

Pois o amor, como eu vi, não passa de uma brincadeira de criança, real e dramática como só uma brincadeira de criança pode se tornar.

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