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Doutor Lindo

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Lindomar era feio. Muito feio. Mas não o tipo “feio-normal”, daqueles que causam, à primeira vista, uma certa estranheza alheia, seguida de um enternecido e quase silencioso “putz, que dó!”. Tampouco era do tipo “feio-clichê”, cujo reflexo, dizem, quebraria espelhos e acumularia anos de azar. Na verdade, ele era do tipo que, de tão feio, evitava o próprio reflexo. Aliás, sobre espelhos, ele só tinha um em casa, bem pequeno e de estimação, do lado da cama. Lindomar, enfim, era um desastre visual, o tipo de feio que se destacava numa multidão de feios e que, se vivesse na Idade Média, seria motivo de canções épicas dos menestréis do escárnio.

E também era médico, e rico. Mas não do tipo “rico-normal”, com estabilidade e uma vida financeira tranquila. Ele era do tipo “podre de rico”, que poderia queimar dinheiro se, além de feio, fosse burro. Possuía carros último modelo, mansões e uma conta bancária tão gorda quanto seus pais, que também eram feios. E ricos. E mortos, o que acabou rendendo ao Doutor Lindo duas heranças, digamos, distintas: riqueza e feiura (sem falar no nome, tão descabido quanto o sobrenome, Belaface). A primeira condição ele procurava esconder. Não queria ser um alvo fácil. A outra, ele até poderia tentar resolver, mas era contra qualquer tipo de intervenção plástica, ou botox, ou algo do tipo. Força de caráter, orgulho próprio? Não, era medo mesmo. Lindomar tinha pavor de cirurgia, de agulha, de bisturi, de médico (?), de camisola de hospital. Imaginava-se com a cara cheia de esparadrapo, caminhando por um corredor frio e insípido, com o traseiro de fora, tentando encontrar um espelho e constatando que a cirurgia fora um fracasso. E entre medo e feiura, o primeiro prevalecia.

Feio, médico, rico e medroso. E, além de tudo isso, um pouco tarado também. Mas não o tipo “tarado-de-tirinha”, que espreita mulheres nos becos à la Jack, o Estripador ou Mister Hyde, apresentando seus pudores com o sobretudo aberto. Era tarado do tipo “tesão-pra-sempre”, que mal podia ver um rabo de saia, e virava noites na boemia, à caça. Só que elas não davam muita, digo, quase nenhuma bola para o pobre, digo, rico Doutor Lindo. Aliás, algumas até davam, mas somente quando descobriam o tamanho do dote (financeiro). Mas, de forma recorrente, exigiam, já nas preliminares, que ele usasse uma máscara ou, pelo menos, um travesseiro. Que ele, aliás, nem gostava, e mantinha no armário. Apesar de sedento, Lindomar mantinha a rigidez (moral), e recusava. Assim como recusara outras, por conta de um detalhe: eram feias. Não do tipo “feinhas”, que uma maquiagem básica resolvesse. Feias mesmo, daquelas que… Bem, daquelas que até o Lindomar recusaria. Afinal, ele, por menos abençoado esteticamente que fosse, era adepto do velho Vinícius, seu feio favorito (não gostava do Toquinho, achava ele meio que bonito).

E, por estas e outras, uma hora a seca se instalou, implacável. Lindomar estava, literalmente, na mão. Que era grande e cheia de veias saltadas. Tão feia que, nos momentos não raros de desespero, ele se auto satisfazia com os olhos fixos para os lados, ou para cima, evitando olhar diretamente para elas, ou para o espelho na cabeceira. Até que um dia, num acesso de raiva pós brochada solitária, justo ele, o diminuto espelho, levou a pior. Sem sexo, e com previsão de azar pela frente, Lindomar chegou no limite. Doutor Lindo ou Mister Hyde. Ele tinha que escolher.

E assim, mesmo inseguro, combinou a cirurgia plástica com um dos seus mais confiáveis amigos, um médico de renome e preço exorbitante. No dia marcado, no insípido e frio corredor principal do hospital, pacientes e enfermeiros presenciaram, estupefatos, um homem de camisola aberta, com uma feia bunda de fora, sair correndo da sala de cirurgia, atravessar desesperadamente todo o corredor e desaparecer de vista pela porta principal. Entre expressões de espanto e sinais da cruz, não foi difícil ouvir alguns murmúrios piedosos: “putz, que dó!”.

Na noite seguinte, antes de sair para a vida e aplacar seu fogo e vergonha, Lindomar devolveu para a cama o travesseiro. Por garantia, se sorte tivesse, colocou um reserva, para uso conjunto conforme fosse o visual da companhia. E, por segurança, deixou na cabeceira, ao lado do espelho partido, sua última e desesperada opção: uma máscara recém comprada, que reproduzia, com bigode e tudo, o rosto do Toquinho.


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