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Fotos e novelas: a história do meu nome

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No tempo deste parágrafo, Nadir, que era “de Carvalho”, ainda era mãe só de uma, irmã de quatro, e filha. Anos à frente, passa tempo, seria também mãe de cinco, como Olívia, que era “de Oliveira”, sua mãe, a Vó. Um dia, do nada, se tornariam sozinhas, mulheres de maridos ausentes, jogadas no azáfama de uma vida-corrida-diária, costureiras de mão cheia, mãos-de-fada calejadas, que cosem vestidos bonitos, de qualquer modelo, cor, tamanho, para dia ou noite, para clientes sempre com razão, pelos filhos, pelos netos. Donas de si, de sobrenomes-árvore, milenares, mãe e filha tinham algo mais em comum além do sangue, da lida, do vasto amor e da discreta melancolia: elas adoravam fotonovelas. Italianas.

Banais e quase sempre românticas, essas foto-histórias, de personagens pouco desenvolvidos e estereotipados, eram uma espécie de subgênero literário que virou febre lá pelos idos de 1950 a 1970. Apesar da valia questionável, aos milhões de entusiastas – mães e avós incluídas – somente importavam o escapismo, as intrigas e o glamour açucarado dos ídolos, homens e mulheres bem vestidos e de penteados impecáveis, sempre bem na foto. Olívia gostava. Costurava sonhos entre narrativas descoloridas, hipnotizantes, enquanto alinhavava o presente e o futuro das suas meninas, já moças. Eram inseparáveis, a Vó e suas revistas. Não sei se Contigo, Capricho, ou na Grande Hotel, um dia ela se deparou com um “ator” até então desconhecido, em uma trama atípica e mirabolante. Não era nenhum dos famosos Franco (Gasparri, Dani, ou Andrei), nem o Sandro Moretti, nem o Cláudio De Renzi. Olívia leu e releu e se encantou com o rosto impassível, o terno bem cortado, o nome invocado. Mostrou para Nadir, barriga de oito meses, esperando o segundo. Decidiram: Giancarlo Del Duca, o galã de fotonovelas de detetive, emprestaria o prenome ao rebento que viria (já tinham batido pé: era menino). E ele seria, também, Carvalho, com muito de Oliveira.

E assim foi e assim é: da obstinação e pelo encanto, no limiar da contracultura e do “quero que vá tudo pro inferno”, nasci com nome e pecha de galã italiano. Que, lo dico presto, de detetivesco não tem nada, não é Dashiel Hammet, nem Poirot, muito menos Sherlock. Aliás, é lugar-comum no universo frívolo dos significados de nomes, indo desde “agraciado pelo Senhor” até “líder às vezes impulsivo, mas de caráter nobre”. Bobagens. Mãe e Vó, tenho certeza, tão somente foram seduzidas pelas fotos que narravam novelas e atenuavam rotinas, e pela sonoridade no nome do ragazzo detetive. Mas deu o que falar: tios e tias reclamavam, visitas nunca acertavam, na escola era soletrado, no recreio repetido, errado, e nem encurtar adiantava. Problema de vocês, o nome é esse e pronto! Vai menino, vai brincar de bola, de detetive, ou do que quiser. E ele foi.

Passa tempo, passa vida, outro parágrafo. Nestes tempos de Kylian e Kiara, se imagina, nome nenhum dá tanto trabalho assim. Ledo, ou triste, engano: amigos não esquecem mas tremem ao ter que escrever, clientes cerram sobrancelhas e não perguntam de novo, atendentes zelosos pedem documento por via das dúvidas, outros rabiscam qualquer coisa. João Carlo, Juan Carlo, Carlo singular, Carlo plural. Jean Carlo? Bonito, francês, né? Escreve assim? Não. Agora já foi. Me chama de Gian. Dian? Jeian? Não. Ivan? Também não, já te disse que não; Ivan é o Terrível, eu sou… Esquece, deixa assim, e me traz logo a cerveja que pedi.

Povo tonto, diria a Mãe. Vai ver não leram fotonovela, completaria a Vó.

Texto apresentado em 27/03/2019 no módulo Circuito, da Oficina Santa Sede.


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