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O dia em que a Terra parou. De vez.

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Logo nas primeiras cenas, em belo preto e branco, uma estranha nave prateada, com formato de tampa de panela, aterrissa num amplo jardim, localizado no centro do poder. Ao mesmo tempo, comoção, paranoia e discussões inflamadas atingiam audiências mundo afora. O ano era 1951. E o filme, “O dia em que a Terra parou” (The Day the Earth Stood Still), dirigido por Robert Wise (o mesmo de “Amor sublime amor” e “A noviça rebelde”). O teor pacifista da película logo chamou a atenção. Afinal, a segunda guerra mundial havia acabado há pouco, e a guerra fria teve início, assim como o temor pela ameaça atômica.

Na trama, um viajante do espaço chamado Klaatu (Michael Rennie) vem à Terra dar um aviso sobre os perigos do poder nuclear. Ainda nos jardins da capital Washington, ele é alvejado por um soldado, e ordena ao robô gigante Gort, que o acompanha, que destrua todas as armas ao redor, sem ferir ninguém. Gort, que não fala, abre seu visor e – bzzt! – dispara um raio de luz que vaporiza as armas inimigas. Pronto: a histeria estava instalada. Levado a um hospital, o viajante foge e mistura-se à classe média, sendo ajudado por uma viúva da guerra, Helen Benson (Patricia Neal) e um físico professor. Ao encontrar resistência e intolerância, Klaatu é obrigado a demonstrar seu poder, parando literalmente a Terra por trinta minutos, através de uma pane elétrica (exceto nos hospitais, aviões em voo e outros itens vitais). Depois disso, é descoberto, perseguido e morto. Antes de morrer, porém, ele pede ajuda a Helen, que vai ao encontro de Gort e, através das palavras “Klaatu barada nikto” (a frase mais emblemática do filme, cujo significado, até hoje, é alvo de discussões e teorias), acalma e controla o robô, que resgata e consegue ressuscitar Klaatu. No fim, antes de partir, ele ainda envia uma mensagem aos cientistas: ou a Terra buscava a paz ou seria, definitivamente, aniquilada pela força policial interestelar da qual Gort fazia parte.

O filme envelheceu um pouco, claro. É possível notar incongruências e exageros (a paz deve existir, mas sob a ameaça da destruição completa; o teor religioso – Klaatu seria Jesus?). Mas a mensagem, infelizmente, é atemporal, no cinema ou não. Guerra fria, comunismo desenfreado, macarthismo e paranoia antes. Conflitos armados, politicagem, censura e paranoia hoje. É a própria Terra, imitando a arte, e se aniquilando.

Mas e se, inspirados por esta obra-prima do passado (que fala de futuro), pudéssemos imaginar uma versão no presente, talvez em outro jardim? Nela, Klaatu, depois de falhar na comunicação com os líderes do planeta, decidiria se encontrar com outras classes. Junto com Gort, ele negociaria com empresários de diversos ramos e descobriria que o enriquecimento a qualquer preço é prioridade – bzzt!. Depois, conclamaria os religiosos para uma discussão sobre a vida e – bzzt! – perceberia que existem crenças e deuses demais e compaixão de menos. Em seguida, se reuniria com políticos de vários partidos e, pela primeira vez na sua existência interplanetária, sentiria nojo de um ser vivo – bzzt! bzzt!

Restaria a Klaatu, enfim, procurar aqueles que, como em todo o Universo, eram os pilares do desenvolvimento social e intelectual. Mas, perplexo, descobriria que eles não existiam mais naquele planeta. Como uma bomba atômica, o desdém político e o silêncio de boa parte da sociedade, além do gás lacrimogênio e das balas de borracha, haviam decretado a extinção daquela classe. Klaatu não teria mais esperanças. E, ao seu lado, Gort não teria dúvida. Com lógica e pragmatismo, ele caminharia até a abertura frontal da nave e, diante da multidão, abriria o visor.

– Klaatu barada nikto! Não cabe mais a nós decidir – impediria o viajante.

E a nave prateada levantaria voo sobre a humanidade, para nunca mais pousar ali. Não muito tempo depois, a Terra pararia novamente. E um grande facho de luz seria visto, vindo do céu.

Bzzzzzt!


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