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Os seios de Tereza

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Segundo pesquisa recente, o primeiro amor, apesar de querido e bem reputado, é um conceito um tanto nebuloso para boa parte da população. Cerca de cinquenta por cento dos entrevistados não conseguiram precisar, ou definir, o momento em que descobriram estar lidando com ele. Entre respostas indecisas (“Acho que foi uma prima”, “Foi no cinema, estava meio escuro”, “Tenho certeza que não é minha esposa”), constatou-se que muitos têm dúvidas se realmente experimentaram este ícone da paixão mundial. Memória ruim, desilusão ou reflexo da crescente libertinagem? Inconclusivo.

Aspas para digressão. Ao tratar deste assunto, não consigo deixar de pensar na Tereza. Nos meus ingênuos e imberbes dezessete anos, ela foi o impacto ofuscante que aprendi a reconhecer como meu primeiro amor. Voluptuosa, carinhosa, disponível (quase sempre) e reveladora, ela marcou os assomos de minha puberdade. Pagar era um detalhe. Ela me dava mais. Quase não me arrependo de ter surrupiado alguns trocados na carteira de meu pai para poder visitá-la, e desfrutá-la. Mas, quando a desconfiança dos roubos se abateu sobre o seio da minha família, tive que desistir dos seios da Tereza. Triste, segui a vida, entrei na faculdade, me cerquei de outras necessidades. Mas o vulcão que eclodiu, consumindo a inocência latente naqueles primórdios, permanece ativo na minha memória. Tereza foi um baita (ou um puta…) primeiro amor. Fecha aspas.

Voltando à pesquisa, dados levantados confirmam algumas suposições, e também um aparente desdém e desencanto com o tema. Eis os principais:

1) Na infância, primeiro amor é mãe. Ponto.
2) Na adolescência, primas e primos, tias insanas, prostitutas compreensivas e amigos “de fogo” são os tipos mais propensos a se tornarem o primeiro amor;
3) Para alguns casados, uma experiência meio frustrante. Se foi só momento, virou saudade. Se virou cônjuge, e está no sofá deitado em frente à televisão, ou alheia na cozinha lavando pratos, tudo bem. Mas já não é a mesma coisa;
4) Para os conectados, pode ser um avatar em uma rede social, muitas vezes sem nome, e com apelidos que podem ser alterados convenientemente (de primeiro amor para segundo, terceiro, bloqueado, não gostei etc).
5) Na velhice, o primeiro amor é uma vaga lembrança. A maioria, porém, não soube dizer se, na época, teve que pagar, se apanhou do tio depois, ou se tinha bebido muito.

Outra parcela de entrevistados, talvez adeptos do “jeito antigo de amar” e fãs de compositores da Velha Guarda, tem opinião mais saudosista. Para eles, o primeiro amor não se restringe somente àquela gloriosa primeira transa, ou àquele intenso e hipnótico olhar inicial, nem se trata de entidade criada por psicólogos de plantão em busca de incautos. Ele realmente existe (ou existiu em determinado momento) por si só. E, apesar de não tão valorizado como antes, ainda é capaz de causar um arrepio cardíaco em quem a ele se apega.

Indefinições e divergências à parte, a verdade é que o primeiro amor transcende. É único e incisivo, primordial e avassalador naquele momento de descoberta. Além dele, outros vários aparecem, alguns melhores, outros piores, outros mais bem programados e, por isso, mais duradouros e mais bonitos. Mas nenhum, como o primeiro, é capaz de ser tão simbólico e liberador. Prova disso, mais do que inferem as fontes não divulgadas desta pesquisa, estão lá, na outrora de minha existência, os peitos vulcânicos e aconchegantes de Tereza.

Publicado no livro “Santa Sede – Crônicas de Botequim – Safra 2011”
Editora Editora Fábrica de Leitura – Out/2011


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