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Triagem

30

– Fechamos o lote principal?
– Sim. Agora falta o outro grupo. Ocorrências diversas.
– Vamos acabar logo com isso. Quem é o primeiro?
– Esta figuraça aqui. Tentou subornar um policial que estava aplicando uma multa.
– Típico marginal. Manda ver, lado esquerdo. Próximo.
– Este aqui furou a fila do cinema. Várias vezes.
– Lado direito, sem desconto. Outro.
– Este recebeu troco a mais e não devolveu. A vendedora era uma trabalhadora idosa.
– Coloca na fila do meio. E anota um agravante.
– Este outro, fazendeiro, recebia uma fortuna por mês, e não declarava tudo no imposto de renda.
– Manda ver, e anota culpa compartilhada com o governo. Lado esquerdo.
– Este grandão aqui, advogado, constantemente estacionava em local reservado para deficientes.
– Mas eram só cinco minutinhos – tentou argumentar o homem, para espanto do assistente.
– Calado, seu meliante. Já avisei que, neste estágio, não tem mais desculpa!
– Joga o traste no lado esquerdo, com agravante duplo. E cuida melhor dessa fila; não deixa mais ninguém se manifestar. Chegou até aqui, já era. Próximo?
Claramente aborrecido, o assistente empurrou o latagão para o lado, e continuou:
– Vamos lá. Esta madame, bem apessoada por sinal, não assinou a carteira da empregada.
– Bonitona mesmo. Pena. Manda ver, pro centro.
– Este comprava produtos falsificados. Inclusive, alguns dos fornecedores dele estão na fila, mais atrás.
– Farinha do mesmo saco. Economiza tempo, e manda todos para o mesmo lugar. Esquerda.
– Os quatro próximos são comerciantes, da mesma laia: nenhum emitia nota fiscal nas vendas.
– Junta tudo e joga no lado esquerdo também. Quem mais?
– Outra turma. Estes aqui adoravam um gato, no mau sentido: roubavam sinal de TV a cabo e água do vizinho.
– Manda ver, conecta eles com o lado direito. Próximo?
– Esse jovem, com cara de santo, vivia batendo o ponto de alguns colegas no trabalho. A casa caiu, e ele veio parar aqui.
– Juventude sem noção. Lado direito. E já anota o mesmo para os colegas. Qualquer hora eles aparecem também.
– Quase acabando. Este aqui não respeitava o lugar nos ônibus. Nem para idosos, nem para deficientes. Lado direito ou centro?
– Centro, de pé, com agravante. Mais algum?
– Os últimos. Este, apresentou atestado médico falso e esta, colou na prova do vestibular.
– Manda ver. Tudo pra direita. Acabou?
– Por hoje sim. Lote bom, não achou, Mestre?
– Sim, bom. Aliás, péssimo, do que jeito que nós gostamos. Bem, preciso ir. Tem um pessoal lá em cima precisando vender a própria alma. Vê se calibra bem os fornos, de acordo com cada grupo. Antes, dá uma olhada na chapa do lote principal, dos políticos e afins. Confere se as labaredas estão atingindo o teto. Tem que queimar bem queimado.
– Sim senhor, Mestre, pode deixar que cuido de tudo. Antes de ir, posso dar uma sugestão?
– Desembucha.
– O cara de pau do estacionamento para deficientes… Posso aumentar o tempo dele em, digamos, cinco minutinhos por dia?
– Boa ideia. Manda ver.

 

Publicado no livro “Cobras na Cabeça – Crônicas (i)reverentes”
Editora Buqui – Ano 2016


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