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Vida, sobre tela

27

Exposto na penumbra, o quadro anônimo se esconde, delimitado por uma moldura já desgastada que abraça formas e sentimentos de uma cena quase surreal, e melancolicamente cotidiana. Na tela, alheio ao cheiro de linhaça e à textura embolorada, um homem e seu coração descompassado se misturam a outros elementos, esparsos, envoltos numa tonalidade tímida e descolorida. Ele, sentado numa calçada de cimento e tecido cru, e diante de paralelepípedos que escorrem irregulares pela avenida, contempla a lua, imensa e chapada. Ela, solitária num céu de azul escuro, sem estrelas, só observa.

No óleo, sobre tela, o pensamento do homem é uma pincelada vacilante que respinga na lua, buscando o entendimento da própria vida, estagnada no canto escuro do museu. Naquela parede imensa, tristemente minimalista, o tempo se impregna no quadro, descascando o vermelho vívido e produzindo tons amarelados, algo sépia, craquelando uma juventude de pigmentação antes vigorosa. Por outro lado, traz também a cor sábia, amadurecida, que de velha só tem a idade, e se sobrepõe. Mas o tempo insiste, é o companheiro bobo da vivência. Ele passa e se perde, ela fica e aprende, entranhada nas memórias perpetuadas, nas viagens feitas, nas relações construídas. Feito vento, ele só faz sussurrar o que já se sabe: a vida é efêmera, uma paleta múltipla de sonhos, perdas, atitudes e ganhos. Luzes e sombras apoiadas num cavalete de contrapontos e concessões. Prolongá-la é não temer rever a técnica, a mistura de cores, o matiz.

O homem, no quadro, com as marcas desse tempo bobo e da vivência vasta, quer fugir daquele cenário distorcido, falsificado por ele mesmo. E tenta esquecer a destemperança da angústia que só lhe rendeu migalhas. Dos falsos prazeres, da bebida sem gosto e dos canapés de inverdades que lhe foram ofertados de bandeja. Das conversas de varanda que não participou, dos relacionamentos que não se envolveu e dos amigos que deixou naquela mesa de bar onde nunca apareceu. E chora, derramando lágrimas sobre a lua. Mas ela nada mais é do que um movimento redondo de tinta e, novamente, só observa. E ilumina.

Então ele se inspira. Restaurado, esconde o tempo sob uma camada de tinta, e se levanta. E caminha na direção da moldura que, apesar de desgastada, ainda é forte. Ele sabe disso, mas prossegue, mantendo os olhos para o alto, mirando o céu de sua existência. E dobra a esquina do próprio coração, agora sem barreiras, e busca pela imensidão da rua, saltitando sobre os mesmos paralelepípedos mal colocados e evitando as fissuras daquela calçada irregular. E sente na pele os respingos reconfortantes de uma chuva fina, e sobe no poste, e dança sobre a água parada, e brinca de cinema, vira filme, vira clássico. Sem medo, ele pula de afresco em afresco, e troca o céu escuro e finito pelas cores quentes de um novo cenário de sol. Agora ele admira a arte de ser livre, e se empanturra das delícias de uma mesa cheia de amigos verdadeiros, beberrões de coração bonito, de conversas de varanda, de relacionamentos e lembranças. Multiparafraseando, ele canta que vai viver sem ter a vergonha de ser feliz, e diz que outros passarão, e ele voará, e vai amar daquela vez como se fosse a última. A lua agora sorri, cúmplice, enquanto ele rabisca um outro horizonte, e se liberta de vez da velha calçada, esnobando o cimento duro daquele cenário que já não inspira mais.

E ultrapassa de vez o paspatur, e chega além dos limites da velha moldura. Ambicioso, deseja uma parede central no grande museu. Afinal, ainda dá tempo de pintar um novo quadro, e nele ser a pincelada principal. Uma obra nova, vibrante e quase perfeita. Quase, por que ela não precisa ser mais do que isso. Basta ser autoral, própria, sua. Tão somente por isso, já será uma obra de arte.


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