Minha casa vai se transformar. A casa de meu pai já não é mais casa. Não é minha nem de meu pai. Nem a rua é mais rua, é avenida. Onde jogávamos “baleia fora d’água” irresponsavelmente saudável, hoje impossível.
Mas ainda é a madeira da porta da garagem com grades enormes. E ainda é o pinheiro dos fundos que de tão grande fazíamos uma corrente humana para abraçá-lo. Bracinhos infantis, corrente minguada, mas ainda corrente e pinheiro abraçado.
Uma marca duradoura de nós mesmos.
Um balanço não podia faltar. Duas cordas grossas, quatro nós indestrutíveis e um assento de madeira. O balanço vai e volta. Gritinhos acompanhavam esse frenesi das tardes da casa de meu pai. Minha casa. O tradicional grito “empurra bem alto” não podia faltar e segue não faltando. Sonhar alto faz parte de alcançar algo. Como um guia não deixa o desistir se instalar.
Madeira povoa meu universo. O ir e vir do balanço povoa minhas conquistas. Na volta o balanço traz consigo o presente, novos empreendimentos se erguendo.
Não deixa nunca de gritar pelo que te incomoda! Agora não ouço gritinhos infantis, adultos não abraçam pinheiros, defendemos opiniões, valores, postura, política, vida e família.
Novas casas tenho agora.
Casa da praia.
Casa da cidade.
Casa de trabalho.
Todas sem pinheiros, balanços ou madeira (impacto ambiental). E quando o balanço alcançar os céus novamente, rotina, trabalho, abusos, sonhos, amores correspondidos ou ignorados nos chamam. Não tem como não escutar.
David Coimbra escreveu em sua coluna vi que o importante é construir o passado, a cada hora do seu dia você está construindo seu passado.
Madeira, pinheiros, balanços, deram consistência a meu passado. Escrevendo, dou corpo a meu presente.

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Comentários para: Minha casa de meu pai
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    19/12/2020

    De estilo criativo e verdadeiro o suficiente para levar em viagem com lembranças e trazer de volta ao presente com esperança.
    Parabéns e obrigado por compartilhar com teus leitores o legado importante que é a história da vida.

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    19/12/2020

    …que máximo! Construíste uma fortaleza

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    19/12/2020

    Lindo texto!

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    19/12/2020

    Muito lindo!! A memória afetiva viva e forte!! Parabéns, Graciella!!

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    19/12/2020

    Graciella, amei tua crônica! Deixou um gosyinho de quero mais!

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    19/12/2020

    Voltei ao meu passado… adorei Parabéns

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    19/12/2020

    Graci querida! Linda crônica. Remete a uma infância feliz. Um abraço carinhoso. Lisi

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    19/12/2020

    Transportei-me para o sítio, “Catetinho”, de meu falecido avô. Consegui sentir o cheiro do final de tarde no alpendre regado a chimarrão e prosa… Fantástico Graci!

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    19/12/2020

    Transportei-me para o sítio, “Catetinho”, de meu falecido avô.
    Consegui sentir o cheiro do final de tarde no alpendre regado a chimarrão e prosa… Fantástico Graci!

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    19/12/2020

    Lindo. Lembranças lindas. Lembrei da minha infância. Tão bom. Obrigada por deixar tu marca na minha vida. Fez minha infância muito mais linda. Sendo responsável por grande parte do que sou hoje. Tua palavras encantam e deixam marcas. Obrigada por compartilhar

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