Walleska terminara de atender ao último cliente no banco e recolhia alguns papeis em cima da mesa e sem muita organização os colocava nas gavetas. Era visível sua pressa em sair dali. Um trabalho angustiante e não estava mais suportando aquela agonia. Uma vontade louca de respirar outros ares.

Na calçada ficou olhando o trânsito da rua, uma sensação de pânico tomou conta de si: horário de pico, buzinas, engarrafamento. Haviam mais problemas pra enfrentar, como se os seus particulares, já não bastassem.

Não mereço isso. Pensava Walleska, passando suavemente as mãos sobre os cabelos, procurando acalmasse um pouco.

Entrou no carro e pensativa seguiu pelo trânsito caótico. Parada no semáforo, o pouco tempo que demorava para o sinal abrir, pra ela parecia uma eternidade. Enquanto dirigia, muitas reflexões de si mesma. Tinha consciência que, em alguns casos, havia provocado aquela situação. A maneira como encarava a vida, seu relacionamento com a família, entre outros comportamentos do dia a dia. Nem sempre agia de forma agradável, ou pelo menos, da forma que esperavam que agisse, embora aquela fosse sua maneira de ser.

Tinha se tornado uma mulher independente muito cedo. Escolhera onde e em que trabalhar. Enfrentou de cabeça erguida várias divergências com seus pais. Recordava Walleska, o dia que comunicou a família durante o jantar, que estaria saindo de casa e indo morar num apartamento, ao lado do homem que amava. Era uma mulher de personalidade forte e enfrentava sempre com firmeza os desafios que surgiam.

Agora se sentia fragilizada, confusa e precisava urgente de um norte e voltar a ser feliz de verdade. Ser aquela mulher admirada, simpática, de sorriso fácil.

– É de coragem e atitude que preciso, de uma decisão definitiva. Sentenciou Walleska. Com um leve sorriso nos lábios seguiu pro seu apartamento decidida que era chegado o momento de agir.

Sentada na cama, Walleska folheava seu diário calma e atenciosamente, fazia a leitura de trechos que lhe prendiam a atenção e por alguns segundos olhava sua imagem no espelho, procurando entender e descobrir naquela mulher, os motivos que a levaram escrever palavras, hoje sem nenhum sentido. Ao lado da cama, no fundo do cesto de lixo, algumas folhas do diário, amassadas. Levantou-se e abriu um pouco mais a janela, precisava de ar puro. Sentia-se sufocada.

O cabelo solto sobre os ombros, a blusa colada ao corpo, tudo incomodava.

Tinha casado e não tivera filhos. A separação veio antes. O homem a quem havia declarado frases de amor, não estava mais ali. O cesto de lixo agora pela metade, com folhas do diário, amassadas.

Novamente foi até a janela do quarto, no quinto andar e ainda um pouco confusa, ficou por alguns instantes olhando a noite lá fora. Pensativa balançou negativamente a cabeça e com pressa, voltou pra cama.

– Não. Isso não era solução. Murmurou baixinho.

Tirou a blusa, abriu o zíper do short. Precisava sentir-se leve. Respirar profundo. Por um momento permaneceu de olhos fechados e ao abri-los, encarou mais uma vez o espelho.

– Seria aquela mulher do espelho a Walleska do futuro? Livre de devaneios, serena, sem preocupações.

Caminhou até a cômoda, tirou a roupa, prendeu o cabelo e nua, dirigiu-se ao banheiro. Após o banho, vestiu seu corpo com a melhor roupa, usou o melhor perfume e no íntimo envolvida da Walleska do espelho. Sorridente e decidida abriu a porta e caminhou pra noite.

Uma nova vida. Outra Walleska.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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