Às vezes me pergunto o que passa na cabeça de alguns pais para escolher determinado nome para o filho?
Trabalhando na pediatria já me deparei com pérolas que, em alguns casos, tomei a liberdade de educadamente perguntar a origem. O público assíduo do hospital tem uma fascinação por consoantes, principalmente se for “y”, “w”, “ll”, “tt” e “ph”. Parece que quanto mais complicado, melhor. Mais bonito, mais chique, mais importante. Sei lá o que mais poderiam pensar para reunir tantos caracteres que, na verdade, só servem para dificultar o rebento na hora de ler e de escrever o próprio nome, bem como de entender as funções de tantas letras inúteis. E por aí conheci os famosos Wuesley, Kesley Macauly, Christhopher, Sthephany, Mycaelly, Ysabelly e tantos outros.
E para quem possa pensar que essa sina se restringe ao hospital e filhos alheios, acrescento as mazelas da família a que pertenço. Meu irmão recebeu o nome do meu pai, Diógenes, e, por consequência “Júnior”. Então, o pequeno era primeiramente chamado de “Júnior”. Percebi que na sequência, a mãe dele começou a se referir ao menino carinhosamente por “Juninho”. E, então, como tudo sempre pode piorar, a próxima etapa foi o pobre piá ser reduzido a “Ninho”. Passados alguns anos, a mãe dele retomou o nome originalmente escolhido. Não perguntei o que a fez repensar e mudar, mas confesso que senti um alívio imenso por ele.
E, para meu transtorno também, meu pai foi meu algoz nesta vida, sugerindo Kaline e não Karine; Kaline e não Caroline; Kaline e não Karline; Kaline e não Aline; Kaline e não qualquer outro nome simples, que não me desse tanto trabalho na vida. Quanta energia eu precisava dispensar para que as pessoas entendessem e pronunciassem meu nome corretamente. Por fim, chegou uma idade em que cansei de gastar meu latim explicando meu nome e fazendo questão de ser a Kaline. Aceitava, então ser a Karine, a Aline, a Caroline e essas outras esquisitas que me batizaram ao longo da vida.
E, assim, me percebi sendo várias em uma, não somente no nome, mas na vida. Sou a Kaline, mãe do Arthur com “h”, o qual já me disse que esse “h” não tem função nenhuma. Sou a companheira do Rogério, cujos irmãos também transitam nessa saga de nomes exóticos. Sou a enfermeira, que cuida do Kesley Macauly. Sou os sucessos, os receios e os fracassos que percorrem as variações dessa Kaline… ora séria, ora maliciosa; ora centrada, ora nem tanto; ora racional, ora delirante; ora acadêmica, ora subversiva. Transcende na arte o que inquieta a alma e, assim, busca a verdade sobre si mesma e escreve essa crônica. Muito prazer, meu nome é Kaline, com “K” e “L”!
(Crônica apresentada em uns dos encontros da Santa Sede no circuito 2019)

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Comentários para: Desabafo de uma vítima
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    19/12/2020

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