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Invisibilidade

30

 

 

Não conseguia lembrar de tudo nitidamente. Era confuso o sentimento que perpassava aquela pobre alma acuada no canto da cama, no quarto escuro, sob aquele lençol colorido, que parecia um pano de chão aos olhos da pequena criminosa. Criminosa era como ela se sentira desde a primeira vez, porque permitia e, mesmo sem saber, sentia que era errado.

Vinha lhe dar um beijo de boa noite e cobri-la, como mães fazem. Devia ser a melhor parte do dia, já que era um dos raros, senão o único momento em que a genitora olhava para a pequena. Aproveitava aquele beijo na testa como se derrete chocolate na boca para prolongar o tempo do paladar doce, sabendo que não viria uma noite tranquila e segura de sono para combinar com o colorido do lençol, com seu vestido de princesa e sua espada de heroína. Quando a casa silenciava e as luzes se apagavam, começava a expectativa.

A porta se abria e a sombra entrava com os longos dedos projetados na parede do quarto. Um arrepio descia da nuca ao final do dorso e ela tentava não respirar na tentativa frustrada de não ser vista por ele. Era inútil. A invisibilidade era seu mais almejado superpoder e, sem perder as esperanças, fazia força apertando os olhos cerrados, para que invisível se tornasse naquele momento e a sombra fosse embora sem lhe causar dor.

Sentia o corpo grande e malicioso encostando no seu, sussurrando palavras feias, culpando-a por ser tão assanhada e reforçando o quanto sua mãe ficaria decepcionada se soubesse. Aquela culpa corroía sua alma, revirava sua mente e a única lembrança clara eram os dedos longos de lagartixa. Os dedos que percorriam seu corpo de forma invasiva. Repugnante. Não conseguia identificar se a maior raiva que sentia era da sombra ou da genitora.

A porta se abria e a sombra entrava com os longos dedos projetados na parede do quarto. O mesmo arrepio descia da nuca e ela tentava a apneia para a sonhada invisibilidade e, sem perder as esperanças, fazia força apertando os olhos. Enquanto os dedos de lagartixa penetravam sua vagina dolorida, segurava o choro com os músculos tensos.

Ela entra!

Não mais precisava ser invisível. A sombra foi levada naquela noite de cabeça baixa, algemada, com dedos curtos e finos. O vestido de princesa e a espada de heroína brilharam no quarto.

Agora e, só agora, poderia assim lhe chamar: Mãe!


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  • Texto apresentado na Oficina Santa Sede Circuito 2019
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Linguagem e gramática9
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