liberte seu texto!

Não se fabricam mais despertadores como antigamente

21

Quando o despertador toca e me espreguiço para tirar o sono que ainda carrego em meus olhos, sempre abro a janela e olho para o meu jardim. Minha grama já passou do tempo de ser cortada. A bergamoteira este ano, sei lá, parece que não vai dar tantos frutos. Os pássaros pulam entre ela e a goiabeira ao lado, cantarolando sem parar. Já a minha esposa, ela vai para o banheiro sem ver tudo isto.

Quando estou na parada de ônibus, vejo um senhor passar caminhando todos os dias. Ele é engraçado não por ser gordo, mas por balançar os braços como se marchasse no exército de Kim Jong-un. Sempre respondo ao repetitivo cumprimento matinal com um divertido Bom dia! Já o menino que estava na parada, ele sequer percebe a passada dele.

Quando chego no escritório, me ajeito em minha ilha de trabalho e não consigo deixar de admirar o monitor da Luana. Sempre cheio de novos post its com recadinhos dos colegas, lembretes, frases que escutou. Me encanta o capricho das anotações, com desenhos e uma letra linda, que parece aquelas dos livros de caligrafia da escola. Já o Carlos que trabalha ao nosso lado quando chega, ele apenas um Olá pronuncia sem olhar.

Quando estou almoçando no restaurantezinho simples, mas gostoso, que fica próximo ao trabalho, gosto de conversar com Seu Rogério, o único garçom do lugar. É só dar corda que ele começa a contar histórias hilárias que não sei se são reais ou pura imaginação. Pena que o papo sempre dura pouco, pois ele precisa correr para atender outras mesas. Já o rapaz de boné que também almoça ali todos os dias, ele sequer levanta a cabeça para fazer o pedido da guaraná com gelo e limão que sempre toma.

Quando estou no ônibus, voltando para casa, observo a muvuca diária do centro. Na sinaleira da Cristóvão, então! Tem o vendedor de balas que não sei como vende algo, tamanho seu mal humor. O palhaço malabarista, que mesmo depois de três anos ali vive deixando as bolinhas caírem para baixo dos carros e se atrapalha todo para juntar as moedinhas das esmolas. O tio do churrasquinho, sempre com grandes gargalhadas e gestos espalhafatosos. E a velhinha do terceiro andar do prédio bege da esquina, que parece mirar tudo para poder fofocar com as vizinhas. Já a morena que sempre senta no mesmo lugar do ônibus todos os dias, ela não observa tudo isto.

Quando deito na cama, após o jantar e as zapeadas nos canais da TV, pego então meu celular e configuro o horário para despertar no outro dia. Já todos eles, passaram o dia olhando o celular em suas mãos, mas não souberam despertar para o dia que passou.


GOSTOU DO TEXTO?
Envie sua avaliação e/ou comentário!

    0 nota (0 votos)
    Criatividade e estilo0
    Ritmo e nexo0
    Linguagem e gramática0
    avaliações: avaliar
    Filtrar por:

    Seja o primeiro a avaliar.

    User Avatar
    verificado
    {{{review.rating_comment | nl2br}}}

    mostrar mais
    {{ pageNumber+1 }}
    avaliar