Ouvi inúmeras vezes meus pais contarem que quando eu era pequeno, não podia passar em frente a um fliperama que queria entrar a todo custo. Até certa idade ficava sentado nos equipamentos, mexendo nos botões, achando que jogava. Mas quando passei a entender e controlar os comandos de verdade, o vício por aquele mundo virtual de poucos bits só aumentou.

Isto geralmente acontecia no verão. Em qualquer umas das praias do nosso litoral você encontrava flipers recheados de games clássicos: Street Fighter, Donkey Kong, Space Invaders e Pole Position. Ah se lembro! O cofrinho da mesada se esvaziava num toque e a diversão dependia de novas tarefas bem feitas em casa, para assim receber algumas moedinhas e dividi-las entre chicletes e novas fichas. Exatamente por isto, o fliper era apenas uma pequena parte do meu dia.

Quando acordava, me atirava no sofá tomando meu achocolatado e ligava a TV. Tinha que escolher o melhor desenho animado que passava entre 2 ou 3 canais, no máximo. Olhava Pica-pau, Tom e Jerry, Pernalonga, Jaspion, Popeye, Mickey e Pato Donald.

Depois trocava a roupa e corria para a rua. Jogava bola, andava de bicicleta, brincava de esconde esconde, tudo isto sem medo, indo até escurecer e a mãe gritar da cerca “volta pra casa guri que tá na hora de tomar banho!”. O que mais curtia era jogar taco. “Discordá”. Feito as duplas. Agora era a hora de acertar a bola o mais longe possível até chegar aos 21 pontos, cruzar os tacos e comemorar a vitória derrubando as casinhas, tirando sarro da dupla adversária. O chato era quando dava “bolinha perdida” e tínhamos que entrar nos terrenos baldios pra encontrá-la, pois não tinha bolinha reserva. Pena que muitas daquelas amizades duravam apenas um verão. Na próxima estação a casa de veraneio ou até a praia era outra, e o jeito era ir para rua e descobrir quem seriam meus novos amigos daquele ano.

Passadas algumas décadas destas recordações, vejo que aquilo sintetizava a liberdade da nossa infância. Hoje é triste ver que a maioria das crianças acabam presas dentro de suas casas, dos seus pátios, dos seus apartamentos a beira mar, por vezes brincando sozinhas ou interagindo com seus tablets ou celulares. Elas até se divertem com joguinhos digitais bem mais legais que aqueles dos fliperamas da minha época, e ainda não precisam gastar nada com isto! Mas se eu pudesse fazer elas voltarem no tempo, daria apenas algumas fichinhas e deixaria elas descobrirem a liberdade que vivi.

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Comentários para: Saudades do Fliperama

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