liberte seu texto!

A Vez da Barra Funda

13

São Paulo, 10 de setembro de 1975. Dia da mudança da casa de Vila Maria para a Avenida Barra Funda. Dia de sol que não se via, com a luz difusa a se ver a São Paulo igual de todo o dia de semana. Uma São Paulo estranha sem perder a novidade. Para um piazito de quase seis anos e duas irmãs, uma de quase 4 e outra de um e alguma coisa, tudo ali era diáfano, brilhando ao que somente nossos próprios olhos podiam alcançar.

A mãe, por costume, era crítica. Firme, dura, amorosa quando possível e levemente necessário. Ao olhar para o mais velho, que perdera os cachos assim como abandonara o bico não havia muito, dizia que ele cuidasse das pequenas, a mudança exigiria bastante, dela e do pai. Como o pai trabalhava, ela é que precisava dar atenção a tudo e contava comigo, certo, Paulinho?

Chegamos quase fim da tarde num apartamento numa avenida larga, espaçosa. Os móveis subiram, um a um. Muito tinha subido, faltavam as caixas das roupas, das louças, cobertores e brinquedos. A menorzinha, para não perder o costume, chorou por um brinquedo guardado sabia-se lá onde, e a do meio se achegou a mim. Ela andava comigo, próxima, eu pisava, ela pisava, eu parava, ela parava.

Mas tudo subiu, máquina de lava-roupa, guarda-roupas, fogão, geladeira, e a televisão colorida. A televisão era a primeira da família, uma joia de botão redondo e caixa plástica preta, que substituíra outra de madeira e de imagem preto e branco, que pegava um ou dois canais de bombril fixado nas antenas, aquela que me acompanhou nos sessenta dias de gesso dos dedos ao extremo da coxa antes do quadril, culpa de uma bola, ou melhor, de uma pisada na bola. Mas não escondo, não dá. Passados esses sessenta dias de gesso e de aprendizado, para descer uma escadaria entre os dois andares da casa da Vila Maria numa perna só, ao experimentar a perna recém curada num muro de metro meio, pouco mais, quebrei tudo novamente, e novamente usei por outros sessenta dias o gesso, dos dedos do pé ao extremo da coxa, quase antes do quadril.

Mas a mãe confiava em mim. Coitada, não havia alternativa. Vinda do interior do Rio Grande para aquela cidade sem fim, como São Paulo parece sempre ter sido, era natural não unicamente o choque, mas certo aturdimento, tão permanente que por momentos parecia verdadeiro medo e alguma coisa de preocupante desespero.

O pai gostava de futebol, torcia mesmo de tão longe para seu Grêmio azul, preto e branco. Trabalhava na empresa de transportes com matriz no Rio Grande. Era o chefe do departamento pessoal da transportadora Tegon Valenti e tinha, em idade, a que tenho hoje, ou algo muito próximo. Contratado especialmente para o cargo, viera de avião pago pela empresa, e nos buscara, após seu período experimental, também de avião, também pago pela empresa. Aliás, o apartamento que nos mudávamos era da empresa, e ficava logo acima do andar onde ficava o escritório do pai, que por sua vez ficava logo acima do depósito por onde entravam e saíam os caminhões. Aquelas enormidades barulhentas levantavam tanta poeira, que parecia subir aos céus da cidade e deixar o sol ainda mais difuso.

A mudança terminou junto com a luz da tarde. Nos víamos, repentino, no escuro. Nenhum de nós chorava. Os dois quartos, a sala, e a cozinha não muito espaçosa, tomados de caixas e móveis mal arranjados. O único que a mãe insistiu arrumar, ainda que à luz de velas, foi seu terço de grossas pelotas e larga cruz de madeira escura, que seria pregado acima da cama do casal e antes que todos dormissem. Dois pregos e bastava.

A noite se instalou quando somente algumas caixas restavam de abas abertas, espécie de caminho incompleto frente ao solitário cansaço da mãe. Pela demora, possivelmente o pai deveria estar a resolver a ausência de energia, ou quem sabe fosse questão de virar uma simples chave, não sei, não sabíamos. Mas na cozinha ensombrecida, surgiram carros, muitos carros, dezenas, centenas, um atrás do outro, faróis acesos, motores roncando, parados e buzinando, nervosos, irritadiços, cravando nossa atenção pela janela inesperada, de frente para a Avenida Barra Funda. Na primavera de 1975, São Paulo entrava definitiva pela nossa nova janela.


GOSTOU DO TEXTO?
Envie sua avaliação e/ou comentário!

0 nota (0 votos)
Criatividade e estilo0
Ritmo e nexo0
Linguagem e gramática0
avaliações: avaliar
Filtrar por:

Seja o primeiro a avaliar.

User Avatar
verificado
{{{review.rating_comment | nl2br}}}

mostrar mais
{{ pageNumber+1 }}
avaliar