Era mês de agosto, época de fortes ventos e calor abrasador nas terras do norte do Maranhão. A vasta planície dos campos pinheirenses, que ficara alguns meses submersa pelas águas do Pericumã, dava passagem para a quadra das secas. Entre cantos dos bem-te-vis, conhecidos anunciadores da alvorada, e as badaladas do sino no alto da torre da tradicional Igreja da Matriz, Inácio, um rapazote de 14 anos, que recebera o nome em honra ao padroeiro da cidade, Santo Inácio de Loyola, após suas brincadeiras e outras danadices próprias do fôlego juvenil, ocorridas à noite, na companhia dos seus amigos, despertava de seu longo sono.

— Levante, meu filho! — falou a mãe, D. Joana, na entrada do quarto.

— Só mais um pouco! — respondeu Inácio, ainda por debaixo das cobertas.

— Hoje é dia de aula, deixe de desculpas! — insistiu a mãe, com ar grave.

O jovem não se dera conta de que suas férias já haviam chegado ao fim, e que era agosto, período de retorno às aulas. Em sua cabeça, tais preocupações não faziam parte de seu expediente rotineiro, afinal de contas, o vigor da juventude era quem ditava suas atitudes.

Na impossibilidade de ficar mais um pouco na cama, levantou em um ímpeto arremesso, tomou seu banho, e aprontou-se para ir à escola. Naquela casa simples, não muito distante da margem esquerda do Pericumã, aquela família reunia-se para a primeira refeição do dia. Simples como o ambiente, sobre a mesa apenas café, leite e o pão, que o pai, Seu Ferreira, comprou mais cedo na quitanda do Zé Joaquim, seu compadre. Tudo dava o tom de mais um dia naquela cidade, na vida daquela família.

Após receber as bênçãos dos pais, o rapazote estava pronto para começar mais um dia. Abriu a porteira, pois não havia muro na casa, apenas uma longa cerca de sarrafos encrespada por algumas plantas que D. Joana gostava de cultivar. Trajado com o uniforme do Grupo Escolar – instituição que já há três décadas vinha prestando bons serviços à cidade de Pinheiro – carregando uma pequena mochila com os materiais escolares, começou a caminhar por aquela rua de terra batida que, à tardezinha, transformava-se em um vasto mundo de brincadeiras. Entre acenos e saudações aos moradores, que já estavam na rua àquela hora, seguia o jovem.

Entre um passo e outro, Inácio encontrava os amigos que surgiam de todos os lados, de cada esquina, de cada casa, começando a formar uma espécie de procissão, onde as ave-marias e pais-nossos davam lugar aos assuntos mais banais: dos desenhos da TV até os últimos jogos do time favorito. A cada conversa, iam tecendo aquele dia.

Já na escola, aquela romaria chegava ao fim. E a manhã transcorria na calmaria daquele dia de verão. Por volta do meio-dia, soou a sirene do Grupo Escolar.

— Até amanhã, João! — gritou Inácio.

— Até amanhã, companheiro! — respondeu João, já no corredor.

— Vai ter briga! — anunciou um que saía da sala 304.

— Onde? — indagou um curioso.

— Vou contar! — ameaçava Alfredo, conhecido valentão da 308.

— Você não sabe de nada! — retrucou o desafortunado daquele dia.

— Tem futebol! — avisou um.

— Você vai levar uma surra! — retrucou outro.

Apesar da aparente confusão, todos conjugavam das informações.

O fim de tarde já anunciava sua chegada, e a rua da casa de Inácio, como uma espécie de metamorfose, passava a ser o universo mágico de infindáveis brincadeiras. Do outro lado, na margem direita do Pericumã, na vastidão dos campos, mantendo um antigo costume, visto como uma forma de renovar as pastagens após o período de cheia do rio, alguns vaqueiros queimavam a vegetação: juncos, mururus, aguapés. No cenário crepuscular, a cidade começou a ser tomada por uma espécie de bruma que emoldurava as ações, os corpos, as atividades daqueles moradores.

Naquela atmosfera, o jovem Inácio olhou para o horizonte e viu, com certa admiração, as chamas ainda tímidas na vastidão. Buscando chamar a sua atenção, Carlos, um dos seus amigos, com voz grave, disse:

— Essa fumaça vai atrapalhar nosso jogo.

— É sempre a mesma coisa! — retrucou outro.

— Pelo menos espanta as muriçocas! — defendeu mais um.

Com uma espécie de véu, a pacata cidade de Pinheiro, a Princesa da Baixada, preparava-se para encontrar os encantos da noite, como a noiva prepara-se para o casamento. Era a princesa que colocava o véu. Cabia a tarefa de ocultar a vasta planície; as marcas da vida; as transgressões de um espírito agitado; as ações inconfessáveis; e as tristes lembranças de quem tem a solidão como companheira inseparável.

E, como rugas na face de uma velha senhora, a silhueta do Pericumã era o retrato de uma vida afanosa de pioneira. E, no anoitecer daquele dia, o clarão das chamas era o epílogo daquele jovem, daquela família, daquela cidade. 

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Comentários para: O véu da Princesa

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