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Nada mais Justto

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Morreu ontem. Falência múltipla dos órgãos. “Já foi tarde”, ouvia-se nas conversas no balcão da padaria, onde os jornais davam em primeira página: Morre seu Armando Justto, o último corrupto brasileiro. Os diversos processos por falsidade ideológica deixavam dúvidas quanto a sua verdadeira data de nascimento. Alguns garantiam que seu Justto, como ele gostava de ser chamado, havia negociado direto com a morte em carne, osso e foice, acordando um prazo extra nesse mundo.
Calou-se. Ainda que famoso por suas frases de efeito, tipo: roubo, sonego, desvio quando puder. Aqui se faz e não se paga. Ou ainda: quem vê cara não vê comissão. Orgulhava-se pelo reconhecimento como remanescente da geração dos corruptos clássicos, aqueles que pagavam propina com cheque ao portador. Também exibia, envaidecido, fotos onde posava abraçado à nata dos canalhas em todas as esferas. Promovia luxuosas festinhas, onde mulheres lindíssimas e senhores horrorosos, bebiam e gargalhavam até o amanhecer, dando origem a “turma do rabo preso”.
Mesmo envolvido em esquemas fraudulentos que variavam de suborno à superfaturamento de obras públicas; de sonegação fiscal à manipulação de licitações; caixa dois, evasão de divisas, associação ao jogo do bicho, máfia do apito, entre CPIS e delações premiadas, seu Justto jamais dormiu na cadeia. Sem contar uma prisão domiciliar na casa dos pais, ocasião em que vendeu a própria mãe e não entregou.
Virou pauta imediata nos telejornais a morte de seu Justto. Teve até uma prévia de arquivo confidencial, que seria exibido em um desses programas de auditório, barrado imediatamente por Brasília. Apresentadores e artistas de televisão, com seus óculos escuros, davam entrevistas lamuriosas a todo instante. O bispo, banqueiros, o prefeito, Geni e o comandante do zepelin, todos prestando suas homenagens, cada um a sua maneira. Na internet, a notícia ganhou o mundo. Nos ônibus, elevadores e filas de banco. Só se falava na morte de seu Armando Justto.
No velório, pago antecipadamente nunca se soube por quem, os últimos ajustes. Coroas de flores que chegaram durante a noite toda, um tapete vermelho contornando o caixão para o último adeus. Ambiente reservado à imprensa. Cadeiras tantas para uma multidão que era aguardada, tudo muito organizado.
Ao abrirem as portas, o silêncio, que sempre acompanhou seu Justto nos interrogatórios, lotou a sala. Ninguém mais. Nem os parentes laranjas, nem políticos, empresários ou jornalistas. Ninguém. Nem a “turma do rabo preso” apareceu. Sequer o santo padre para encomendar o corpo. “Já foi tarde”, comentou o coveiro antes de encaminhar o defunto. No velório do último corrupto do Brasil, sem testemunhas, o morto fora engavetado. Nada mais, Justto.


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