1. Conto

Onde se ganha o pão

O Amarildo anda inconformado.

Contrataram uma garota nova pra trabalhar no setor do Amarildo: a Tatá.

Pois a Tatá foi contratada e, como ela era muito inexperiente, o chefe pegou ela pela mão, arrastou até a mesa atolada de serviços do Amarildo e disse:

Fica com este animal aqui que ele vai te ensinar o que fazer.

E se foi, deixando o Amarildo com sua mesa, seus intermináveis serviços e a Tatá, que ele deveria ensinar a fazer alguma coisa.

Para complicar, mal levantou os olhos para olhar para ela, o Amarildo logo achou a Tatá deliciosa. O Amarildo ficava meio perturbado perto dela. Mas, fazer o que? Não dá pra escolher os colegas de serviço. Além disso, o Amarildo nunca foi muito conquistador, então ele tinha certeza que nunca ia acontecer nada entre ele e a Tatá. O Amarildo, então, só mantinha a seriedade e seguia trabalhando.

Mas a Tatá começou a chamar o Amarildo pelo diminutivo. Toda vez que eles se encontravam, ela saltitava: “oi, Amarildinho“. O Amarildo se emocionava, mas tentava não se abalar muito. Logo a Tatá, além de usar o diminutivo, começou a falar de um jeito meio miado com o Amarildo.

O Amarildo ficava desconcertado, mas seguia firme na sua seriedade. Só falava de trabalho com a Tatá. Trabalho, trabalho e trabalho. Dava alguns sorrisos, às vezes, pra ser simpático, e só.

Então a Tatá começou a se dar algumas liberdades. Começou a se abraçar no Amarildo todas as vezes que o via, se encostava bem juntinho dele quase sempre que ele queria lhe explicar algo novo, passava as mãos no cabelo dele, aquilo estava desorientando o Amarildo.

Será que ela quer alguma coisa comigo? Será que eu tenho uma chance?” pensava o Amarildo.

Quando a Tatá chegava pertinho dele e se fazia de impressionada dizendo “nossa, você sabe de tudo Amarildo” passava todo tipo da mais safada pornografia na mente do Amarildo, mas, externamente, ele mantinha a inexpressividade de um mordomo inglês, como se todas aquelas firulas da Tatá fossem meros aborrecimentos pra ele.

Mas a Tatá parecia cada vez mais faceira na volta do Amarildo. O Amarildo começou a arriscar uma piadinha aqui, outra gracinha ali, e a Tatá dava sorrisos cada vez maiores e significativos pro Amarildo.

O Amarildo já não aguentava mais. Uma hora, surgiu uma oportunidade: os dois ficaram sozinhos no escritório. Não havia ninguém por perto mas, ainda assim, o Amarildo se aproximou discretamente da Tatá, falando baixo. Ela o tratou pelo diminutivo, pegou algumas vezes no braço dele e ele não suportou. Olhou nos olhos dela e, de um jeito incisivo, mas visivelmente inseguro, tascou:

Esse teu jeito me enche de vontade de te dar um beijo, sabia?

A Tatá olhou pra ele com uma cara estranha. Se afastou um pouco dando um sorrisinho sem graça. Sentou na sua mesa e não falou mais nada. Hoje, ela só conversa sobre amenidades com o Amarildo. Sequer responde direito aos “bom dia” entusiasmados que ele dá.

Ele não entende. Não sabe o que fez de errado. Não sabe nem se ele fez alguma coisa de errado. Não sabe o que pensar. Não sabe como ele conseguiu, mas ele afastou a delícia da Tatá e agora ela o olha como se ele tivesse assassinado uma criança.

O Amarildo, como eu disse, ficou inconformado. Volta e meia, ele me pergunta “o que aconteceu? Por que ela fez isso?

Eu sei lá, Amarildo!

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