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Escarpim preto, no. 36, salto 10

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          Jamais gostei de viver só. Desde muito novo, andava me enrolando com alguma meia de seda. Meu estilo garboso e requintado exigia que eu não me envolvesse com qualquer uma. Meias grossas não tinham vez comigo. E, mesmo as finas, quando ficavam velhas e furadas, eram trocadas pelas mais novas, sem culpa, nem remorso. Achava insuportável o contato com rugas e fios puxados; nem poderia; minha pelica era da melhor qualidade. Passei quase toda minha vida em um luxuoso closet. De minha família, eu era o mais elegante, o mais fino, o mais bem cuidado e, também, o mais festeiro. Não era qualquer lugar que eu frequentava; somente reuniões e eventos de grande pompa.

            Em meio ao burburinho dos grandes salões, muito roçar de peles. Ninguém pode sequer imaginar as fantasias eróticas que realizei nos recônditos do meu ser. Minhas companheiras eram sempre muito ardentes e gostavam de moldar-se a mim. Foram tantas que nem consigo lembrar todas. Escuras, claras, com brilho, opacas, de rendas, lisas, que importa; amei uma por uma como se fosse a última. E, na maior parte das vezes, foi mesmo. Poucas resistiram a uma noite comigo. Rasgavam-se de amor. Eu as destruía em alguns passos de dança. Na manhã do novo dia, enquanto repousava no aconchego do closet, elas estavam jogadas no piso frio, estraçalhadas, à espera de um destino cruel – o lixo. Alguns dias de repouso ao guerreiro, e logo aparecia um novo amor. Um rápido período de adaptação, uma boa música e pronto: lá estava eu, arrebatador.

            Na idade madura comecei a ter minhas preferências. As completamente transparentes me fascinavam. Estavam ali, mas pareciam não estar. Eram enigmáticas e muito mais delicadas. O tipo arrastão me enlouquecia com aqueles fiozinhos sempre tramando alguma coisa. Mas, foi perto da meia idade que me apaixonei completamente. E foi um amor impossível. Era o estigma da mais excitante criatura que eu jamais vira. Repousava erótica sobre o peito do pé esquerdo, provocativa, sem que eu pudesse tocá-la. Me torturando, se oferecendo. Acabou com a minha paz. Desde então, nunca mais fui o mesmo. Só queria poder palpar aquela maravilhosa sereia, razão de todas as minhas inquietações. Mas ela não caiu nos meus encantos. Eu esperava ansioso o momento em que escorregaria para dentro de mim. O que nunca aconteceu. Rejeitado, não suportava mais o convívio com meia nenhuma, nem mesmo as transparentes. Tratava-as com grosseria e, muitas vezes, já ficavam destruídas no primeiro contato. Nada mais me importava. E, de tanto rasgar as meias, me dei mal: fui jogado num canto do closet. Tornei-me objeto sem serventia.

            Fiquei condenado, por algum tempo, a ver minha sereia desfilar ao longe, cada vez mais distante no tempo e no espaço. Até que um dia fui colocado numa caixa escura, certo de que era o fim. Viajei por lugares que nem sei. Quando tornei a ver a luz, acomodaram-me numa gaveta malcheirosa, junto com sapatos, tênis e botas de baixa qualidade. Foi uma grande humilhação. Minha velhice tem sido uma lástima. Primeiro, forçado a me relacionar com meias ásperas, surradas e cerzidas. E, agora, com um pé quebrado, abandonado e sujo, uma parte de mim mora embaixo do armário e a outra se perdeu faz tempo, como os amores do passado.


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